domingo, abril 18, 2010

"nasce um novo dia e no braço outra asa"

Não foi de repente que as coisas novas, boas, empolgantes e até mesmo merecidas surgiram.

Primeiro surgiu a vontade de as ter.

E agora é deixá-las chegar.

quarta-feira, abril 07, 2010

Incontornável

Não foi uma guerra feita de batalhas, ganhas nem perdidas. Foi uma batalha, uma guerra.

Morreram todos, numa mão cheia que encena um adeus.

Desapareceram todos e tudo. As mais velhas, os mais novos, o que ladrava, os cavalos, a rua, os cheiros.

Uma mão cheia suspensa no ar que dispara um adeus.

Uma mão cheia suspensa no ar.

Sem retorno.

sexta-feira, abril 02, 2010

Abril, outra vez

O mundo não acaba quando alguém parte, mas há muita coisa nossa que parte também.

Já vi partir duas pessoas em 28 anos, duas pessoas próximas, íntimas, minhas. Achei que dificilmente poderia continuar, que não continuaria. Mas continuei. Uns dias mais inconsciente que outros. E dias mais viva que nunca.

A nossa vida não acaba quando enterramos alguém, mas há muito pó a assentar nas roupas, muitos ciscos sobre a pele, muita terra sob as unhas.

quarta-feira, março 31, 2010

Kseniya Simonova no youtube

Para quem está com vontade de bater palmas e muito, muito mais.

Os devidos agradecimentos a quem de direito.

domingo, março 28, 2010


Eram já três da manhã, hora de Verão, quando ouviu estremecer a folhagem, podes vir a qualquer hora, dissera, mas ele não veio.
Não veio nessa noite, nem nas noites que se seguiram.
Chegaria pelas seis da tarde, hora de Inverno, quarenta e dois anos depois, quando já era tarde demais.
Mesmo para o chá.

domingo, março 21, 2010

Em cruz ilhada

Queria encontrar a combinação de palavras que tivessem o poder de te trazer de novo para perto de mim.

Tem sido uma cruzada, no café, à hora do lanche, à mesa com a sopa, na viagem de todos os dias, na vida de todos os dias que vivi no já longo espaço que me separa de ti.

Tenho procurado em livros de psicologia, sociologia, auto-ajuda, desenvolvimento pessoal, nos clássicos, e até em revistas e jornais, não vá suceder que já alguém a tenha encontrado, bastando-me a mim a simples e inglória, mas eficaz, reprodução.

Continuo à procura. Ensaio algumas combinações, em rascunho, em voz alta, em HD, em maiúsculas, minúsculas, assim e assado. São pesquisas intermináveis, olheiras que crescem sob as luzes dos candeeiros acesos até altas horas, candeeiros que desejam incendiar as tantas páginas que se vêem obrigados a alumiar.

Pode ser que não chegue à glória desse dia, pode até acontecer que, chegado esse dia, eu já não queira ter esse poder. Até lá, permanecerei ilhada de ti, à procura das coisas certas, e das palavras também.

Whatever, don´t matter

quarta-feira, março 17, 2010


Sempre gostei de homens. Juro.

Mas caramba nada se compara à deusisse de uma mulher. Uma mulher bonita.

terça-feira, março 16, 2010

A década nas coisas

Prontinho, já tenho título, agora falta escrever o livro.

Na minha cabeça nenhuma coisa me surge antes do nome, em último caso aparecerá em simultâneo, mas nunca antes.

Portanto, aqui fica o nome da coisa que se segue. E que belo nome, porque tem palavras (não gosto de títulos compostos apenas por uma palavra, que pobreza; menos ainda de títulos que são quase frases), tem metáfora, tem densidade, tem jogo.

É um nome absolutamente sublime, e como sei que não vou ser capaz de escrever coisa nenhuma, vou oferecer o nome à exposição que o Carlos vai fazer. Ele ainda não sabe, mas vou desafiá-lo a fotografar a década nas coisas, e eu quero participar.

Aguardem. Um sucesso, um sucesso.

Próxima aquisição


Levezinho, levezinho. Até parece uma coisa fácil.

A polpa dos Tricicle

Rir não é nenhum remédio. Não cura maleitas, nem retarda o aparecimento das rugas.

Mas vale muito a pena, especialmente se não tivermos de pagar.

Mas vá, eles merecem. E está ali o melhor do seu trabalho, pelo que nenhum cêntimo será desperdiçado.

Os Tricicle para mais uma corrida, com muita festa à mistura.

Uma década depois

terça-feira, março 09, 2010

I've got [your] smile

Só a cor não assusta



Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!


Poema do Sr. Quintana

Das portas que se fecham. E das que se abrem.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Quando nos enganam redondamente, engolimos em seco e regressamos aos nossos 50 cm de pura ingenuidade.
O Roldão fechou portas, mas o Eterno Instantâneo fez voar um telhado inteiro.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Um mundo à parte

A avó Gugu vai com toda a certeza concordar comigo, não porque ela seja de outros tempos, mas, essencialmente, porque terá outros valores.

As famílias modernas, não despropositadamente assim chamadas, porque afinal não são apenas famílias que são contemporâneas, são famílias modernas, cheias de modernices, cheias de pais e mães e meios irmãos.

Uma família moderna é assustadora, porque a Maria come o António, mesmo sendo namorada do Manuel. O Joaquim comeu centenas, e vai já no terceiro casamento. O Guilherme casado e com um filho sai de casa por uma qualquer e depois volta, passado muito tempo, muita miséria, muito sofrimento.

E depois é Natal, juntam-se todos numa grande confusão, onde há necessariamente gente a mais, gente que não é suposto estar ali.

E eu pergunto-me se isto é ainda uma família, ou se será já outra coisa.

Destreza

sábado, janeiro 09, 2010

Miragem

A vida com ela é mais fácil.
Há mais dinheiro, mais amigos, mais festa. É tudo novo, ainda.


A vida com ela é uma lufada de ar fresco, porque é isso que as coisas novas nos trazem.


Passei meses em frente à porta do frigorífico, em sucessivos dias de Verão. Senti calor, os lábios secaram, só pensava em abrir a porta do frigorífico. Matar a sede. Que bom que seria.

Nunca estive sozinho naquela casa onde guardei o frigorífico. Mas era como se estivesse, pelo menos era esse o meu desejo e fiz de tudo para que isso acontecesse.

Só pensava em voltar a estar sozinho para abrir a porta, sentir a lufada de ar fresco. Matar a sede. Estar com ela.

Um dia ganhei coragem, importei-me mais comigo que com tudo o resto e abri a porta.

Sei que ao abrir aquela porta tudo à minha volta congelou, ficou frio e cruel. Mas isso não importa, porque eu matei a minha sede. Foram meses à espera de abrir aquela porta. Percebem?

Sei também que não poderei manter a porta do frigorífico aberta por muito tempo. Mas será o tempo bastante para matar de frio a pessoa que agora nem lembro, e será o tempo bastante para me sentir bem e feliz e acreditar que será bom para sempre.

A vida com ela é mais fácil.

Nunerico

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Hallelujah

A paixão quando chega leva tudo atrás.

"I've been here before"

Just once.

Entretanto, encontrei quem se tivesse apaixonado por mim, e poderia ter ficado ali para sempre, creio.

Não fosse o referido tipo um poço de paixões, daqueles para quem apaixonar-se é ano sim, ano não.

Sem conotações positivas ou negativas, a paixão para mim merece um aleluia.

Não quero que se apaixonem por mim. Desta feita quero e vou apaixonar-me.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Barreiras

Num ano, agora passado, enlouqueci um pouco. Dei-me conta de como uma injustiça sem responsabilizados nos pode causar danos.

Há dívidas morais que não serão saldadas.

Este ano, agora chegado, vou enlouquecer um pouco mais fingindo que esqueci tudo, que há de facto uma barreira, muito mais física que psicológica, entre o último dia de 2009 e o primeiro de 2010.

Este ano, o meu mundo vai ficar maior e como me disse alguém:

"A tua vida recomeça agora. E estás a tempo de tudo. Tudo mesmo."

Agradeço muito aos meus amigos e família por, felizmente, continuarem onde realmente preciso deles: perto.

Obrigada e bons saltos.

terça-feira, dezembro 29, 2009

O que aqui se destruiu não voltará a erguer-se

A vida dá tantas voltas que, necessariamente,há sempre um momento e outro em que enjoamos, empalidecemos e passamos mal.

domingo, dezembro 27, 2009

No fiar nunca esteve o ganho

Não confiem.
Não confiem mesmo.
Afinal, continuamos animais,
instintivos,
e imprevisíveis.

Desconfiem.
Desconfiem muito.
E, sobretudo, guardem as mãos bem longe de todo o fogo.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O Amor é um lugar morto

Naquela manhã, acordaram ambos por volta da mesma hora. Tomaram um duche, comeram cereais. Ele ainda fumou um charro, enquanto ela se estendeu um pouco na varanda a apanhar os primeiros raios de sol.

Estranharam o Amor estar ainda deitado. Preocupados, aproximaram-se da cama e perceberam o que era por demais evidente: o Amor estava morto. O corpo ainda estava quente, mas a falta de vida não deixava dúvidas.

Apressaram-se a sair, porque nenhum dos dois quis ver-se envolvido naquela morte, ser apanhado, ou até mesmo acusado.

Apressaram-se a sair.

E sair foi a última coisa que fizeram juntos.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Try again. Fail again. Fail better.

É sempre difícil falar de uma casa vazia.

Especialmente porque na memória de quem a encheu ela permanecerá assim: cheia.

Dos livros, dos filmes que passavam a horas tardias, das sestas a meio da tarde, da areia da praia presa ao soalho, da brisa das noites de verão a entrar pelas portas da varanda, dos corpos encostados às janelas, dos bons dias, dos capacetes plantados no sofá ao canto, dos fumícios, das discussões, do amor aceso, do prestável colchão de plástico (onde tantas vezes dormimos) a esvaziar à medida que os sonhos esvaziavam também.

Esvaziou o colchão, esvaziaram os sonhos, e por fim esvaziaste, esvaziei e esvaziámos a casa. Falhaste, falhei , falhámos.

E ainda hoje preciso falar dessa casa vazia, dessa casa que adormece comigo e acorda comigo. Dessa casa que recordo, às vezes porque a quero recordar, mas a maior parte das vezes porque não a consigo esquecer.

Porque ainda a vejo cheia. Vejo os vidros embaciados nos Invernos, sinto os meus lábios na tua cara. Abraço-te porque tenho vontade, estico-me no sofá castanho, vejo-te na tua cadeira a fumar, ainda te ouço algumas palavras, mas já não consigo ouvir tudo.

É sempre difícil falar de uma casa vazia.

Especialmente porque, objectivamente, e para lá de tudo o que a memória nos impinja, ela permanecerá assim: vazia.

domingo, novembro 08, 2009

FAUSTO VS JEREMIAS

Um avô, cuja figura ia já desvanecendo na sua memória, e um conselho: Faz-te boa moça, dizia, foram o bastante para nunca se ter entregue.



Jeremias escolheu, sempre, o seu lugar do lado de fora.

quarta-feira, março 04, 2009

Tudo sobre Eva





Do mistério das coisas ninguém duvide.


Porque há sempre uma parte de nós, talvez a pior, que ninguém conhece.


quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Pulsar

Janelas do meu quarto


Poderia escrever os versos mais belos esta noite.
Soubesse eu de poesia.
Pintaram-me, mascararam-me, e eu até cheguei a viver, por fases, convencida.
Especialmente depois de meia dúzia de shots.
Acreditava em qualquer coisa, se boa.
Como escrever os mais belos versos, numa noite qualquer, quisesse eu, mesmo que não soubesse.

Não poderiam, nem que soubessem, imaginar-me em fases de crença. Degolaria o mundo com um sorriso dos meus.

São bonitos os meus sorrisos.

Poderia?
Desconvenço-me com a garrafa de vinho. São tão bonitos os meus sorrisos.

Vou escrever o verso mais triste esta noite. Escrever, por exemplo: “Como são bonitos os meus sorrisos.”

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

sexta-feira, janeiro 30, 2009

E agora que a erva assaltou os meus caminhos?


Parar, pois então. Estender-me. Ver o verde a deslizar-me olhos adentro. Ouvir os zumbidos dos que sempre vão andando.

E esperar. Esperar que a erva me assalte o corpo e me dilua num imenso borrão de cor.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Lonlêncio

Vai longo o silêncio, o devaneio.
Remamos sobre as palavras, como se não tivéssemos guelras. Porque nos é difícil entender, muitas vezes, tantas vezes, vezes a mais, se é sobre ou sob que devemos remar.

Vai longo o silêncio.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Boiroaco negro

Os cabelos longos, húmidos e negros formaram tamanha poça no hole de entrada que tudo e quem por ali passasse sugado era.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O tempo foi-nos comendo e quando demos por nós já não estavamos cá mas naquele outro sítio de onde afinal nunca saímos


E foi assim, acordamos sem nenhum perfume.
Não havia nada mais a fazer ali. Peguei em mim e embalei-me, tapei-me com tudo o que consegui e assim mais ninguém me viu. Mais ninguém.
Eu agora vivo aqui dentro. Não há voz, não há cor nem movimento que me denuncie.
Não há sequer o tempo que vejo passar ao olhar lá para fora.
As coisas que se atravessam diante dos meus olhos não são, simplesmente.
Continuo a olhar e o dia que se põe fica para sempre gravado. Queimado.
Não há chuva
som
tacto
não há uma simples cadeira no tecto para que descanse as mãos de tanto viajar.
Não há.

Olho de vez em quando para trás só para ainda ver onde ando. Qualquer dia não me encontro no meio destas luzes.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Abocanha o dia, ou carpe diem, ou o que dele restar.

Os dias tinham sido curtos nos últimos tempos. Sempre que abocanhava a rua depois do dia de trabalho, já o esperava a noite do dia de trabalho.

Mas naquele dia ainda era dia. Assim um dia de dia. Assim um dia escurinho, mas iluminado ainda. Não eram seis como as seis da tarde de um entardecer de Verão. Mas eram talvez como as oito e quarenta e cinco da noite de um entardecer de Verão, e, no entanto, ainda eram seis de um ainda dia de um Inverno. Ainda.

Entretanto o sol foi morrer longe e eu não vi mais nada. Ainda.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Não tinha rodinhas.

Talvez porque os cânones não se mudem assim, já que pesam e ficam. Ganham o pó e as térmitas e as manchas e o seu lugar. Ganham a idade e o valor e o direito a permanecer.

Não tenho corpo de livro, cheiro, ou toque. Mas tenho-lhe a alma.

Mudem os anos, os amigos, os empregos, a sorte, mas que não mude a caverna, a chama e o aconchego da minha mais brilhante certeza: a de não haver rodinhas possíveis para a minha biblioteca.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Vagabun Do Mar

Cortaram-lhe os dedos, arrancaram-lhe os dentes e coseram-lhe a boca.

Mais, congelaram-lhe o coração. E abandonaram-no numa jangada à deriva.

Um dia, depois de muita derivagem, bateu contra uma areia fina.

Levaram-no, descoseram-lhe a boca e descongelaram-lhe o coração.

Um dia, depois de muitos dias, mesmo muitos, abandonaram-no, simplesmente e sem mais, numa jangada à deriva.

Desta feita usou os braços como remos e não voltou a haver dia em que batesse contra o que fosse.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Uni o verso por falta de espaço

Dizem que não sabiam quem era

Só sabem que tinha um curriculum vitae, uma carta de apresentação e um namorado.

E, dizem, dizia sempre pelos sítios onde passava que, para que se soubesse, tinha um curriculum vitae, uma carta de apresentação e um namorado.

E assim vos digo, sabiam tão pouco que nunca souberam quem era.

quarta-feira, julho 18, 2007

quinta-feira, junho 07, 2007