Vai longo o silêncio, o devaneio.
Remamos sobre as palavras, como se não tivéssemos guelras. Porque nos é difícil entender, muitas vezes, tantas vezes, vezes a mais, se é sobre ou sob que devemos remar.
Vai longo o silêncio.
"É então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das palavras que te descrevem, hesita numa das entradas do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens inúteis que me separaram de ti."
quarta-feira, janeiro 21, 2009
quarta-feira, dezembro 10, 2008
segunda-feira, novembro 10, 2008
Boiroaco negro
Os cabelos longos, húmidos e negros formaram tamanha poça no hole de entrada que tudo e quem por ali passasse sugado era.
segunda-feira, agosto 11, 2008
quarta-feira, junho 11, 2008
quarta-feira, abril 09, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
O tempo foi-nos comendo e quando demos por nós já não estavamos cá mas naquele outro sítio de onde afinal nunca saímos

E foi assim, acordamos sem nenhum perfume.
Não havia nada mais a fazer ali. Peguei em mim e embalei-me, tapei-me com tudo o que consegui e assim mais ninguém me viu. Mais ninguém.
Eu agora vivo aqui dentro. Não há voz, não há cor nem movimento que me denuncie.
Não há sequer o tempo que vejo passar ao olhar lá para fora.
As coisas que se atravessam diante dos meus olhos não são, simplesmente.
Continuo a olhar e o dia que se põe fica para sempre gravado. Queimado.
Não há chuva
som
tacto
não há uma simples cadeira no tecto para que descanse as mãos de tanto viajar.
Não há.
Olho de vez em quando para trás só para ainda ver onde ando. Qualquer dia não me encontro no meio destas luzes.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Abocanha o dia, ou carpe diem, ou o que dele restar.
Os dias tinham sido curtos nos últimos tempos. Sempre que abocanhava a rua depois do dia de trabalho, já o esperava a noite do dia de trabalho.
Mas naquele dia ainda era dia. Assim um dia de dia. Assim um dia escurinho, mas iluminado ainda. Não eram seis como as seis da tarde de um entardecer de Verão. Mas eram talvez como as oito e quarenta e cinco da noite de um entardecer de Verão, e, no entanto, ainda eram seis de um ainda dia de um Inverno. Ainda.
Entretanto o sol foi morrer longe e eu não vi mais nada. Ainda.
Mas naquele dia ainda era dia. Assim um dia de dia. Assim um dia escurinho, mas iluminado ainda. Não eram seis como as seis da tarde de um entardecer de Verão. Mas eram talvez como as oito e quarenta e cinco da noite de um entardecer de Verão, e, no entanto, ainda eram seis de um ainda dia de um Inverno. Ainda.
Entretanto o sol foi morrer longe e eu não vi mais nada. Ainda.
terça-feira, janeiro 01, 2008
Não tinha rodinhas.
Talvez porque os cânones não se mudem assim, já que pesam e ficam. Ganham o pó e as térmitas e as manchas e o seu lugar. Ganham a idade e o valor e o direito a permanecer.
Não tenho corpo de livro, cheiro, ou toque. Mas tenho-lhe a alma.
Mudem os anos, os amigos, os empregos, a sorte, mas que não mude a caverna, a chama e o aconchego da minha mais brilhante certeza: a de não haver rodinhas possíveis para a minha biblioteca.
Não tenho corpo de livro, cheiro, ou toque. Mas tenho-lhe a alma.
Mudem os anos, os amigos, os empregos, a sorte, mas que não mude a caverna, a chama e o aconchego da minha mais brilhante certeza: a de não haver rodinhas possíveis para a minha biblioteca.
quinta-feira, setembro 27, 2007
quarta-feira, setembro 26, 2007
Vagabun Do Mar
Cortaram-lhe os dedos, arrancaram-lhe os dentes e coseram-lhe a boca.
Mais, congelaram-lhe o coração. E abandonaram-no numa jangada à deriva.
Um dia, depois de muita derivagem, bateu contra uma areia fina.
Levaram-no, descoseram-lhe a boca e descongelaram-lhe o coração.
Um dia, depois de muitos dias, mesmo muitos, abandonaram-no, simplesmente e sem mais, numa jangada à deriva.
Desta feita usou os braços como remos e não voltou a haver dia em que batesse contra o que fosse.
Mais, congelaram-lhe o coração. E abandonaram-no numa jangada à deriva.
Um dia, depois de muita derivagem, bateu contra uma areia fina.
Levaram-no, descoseram-lhe a boca e descongelaram-lhe o coração.
Um dia, depois de muitos dias, mesmo muitos, abandonaram-no, simplesmente e sem mais, numa jangada à deriva.
Desta feita usou os braços como remos e não voltou a haver dia em que batesse contra o que fosse.
terça-feira, setembro 25, 2007
quinta-feira, setembro 20, 2007
Dizem que não sabiam quem era
Só sabem que tinha um curriculum vitae, uma carta de apresentação e um namorado.
E, dizem, dizia sempre pelos sítios onde passava que, para que se soubesse, tinha um curriculum vitae, uma carta de apresentação e um namorado.
E assim vos digo, sabiam tão pouco que nunca souberam quem era.
E, dizem, dizia sempre pelos sítios onde passava que, para que se soubesse, tinha um curriculum vitae, uma carta de apresentação e um namorado.
E assim vos digo, sabiam tão pouco que nunca souberam quem era.
quarta-feira, julho 04, 2007
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