segunda-feira, novembro 21, 2005

Quedos e mudos


Cãosa-me esta Democracia domesticada.

Se isto vos interessa -porque sempre é mais um, e a soma numa democracia é essencial-, ofereço o meu voto, que, de facto, não vale um rabo canino a abanar, embora me tenham tentado cãovencer de que valia um cão inteiro, com direito a latir e tudo e tudo e tudo.

Cãosa-me que ganhe sempre a maioria. É que ganha sempre a maioria. Raios a partam, que até votava Nike se o modelo estivesse bem desenhado, ou a borracha cheirasse a osso.

Eu não votei em nada disto. Mas isto sou só eu, definitivamente subtraída.

Ofereço-vos também um grande poema, não porque a palavra "cão" surja escrita 30 vezes, mas porque o cão me parece um fabuloso objecto correlativo.


"(...)
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia-a-dia
(...)
cão moído de pancada
e condoído do dono,
(...)
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!"


O Cão é de Alexandre O'Neill. A praça dos desempregados é de F. Botero.

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